Automóveis conectados: Vem aí “a Internet dos Carros”...

O automóvel do futuro vai ser elétrico, autónomo e... conectado! De facto, a par da eletromobilidade e temas associados (veículos elétricos, híbridos, motores a combustão mais eficientes e menos poluentes, mobilidade sustentável, etc...), bem como da aplicação prática de tecnologias que irão dar origem à chamada condução autónoma, no que diz respeito ao automóvel outro conceito se anuncia cada vez mais como uma das grandes tendências do futuro: os ‘connected cars’, ou automóveis conectados. Com o relevo especial de que este último conceito, e ao contrário do que acontece com os outros dois, é já hoje uma realidade inquestionável e um tema incontornável: a eletrificação dos veículos pode não ser consensual, as limitações à adoção da condução autónoma são ainda muitas e de vária ordem (técnica, prática, legal...), mas do que já não há qualquer dúvida é que a conectividade vai estar cada vez mais presente nos carros que conduzimos. A informação sobre o tema é muita, mas geralmente demasiado genérica e muito centrada – como aliás se compreende – nos sistemas próprios a que cada marca ou fabricante recorre; por outro lado, o tipo de funcionalidades permitidas por cada um desses sistemas muda também bastante em função de quem os fornece. Assim, e considerando a relevância crescente deste conceito e do que ele pode oferecer aos veículos, aos seus utilizadores e à mobilidade em geral, vamos tentar perceber o que é o automóvel conectado e porque razão, muito mais do que ser uma simples extensão do nosso ‘smartphone’, se prepara para fazer parte do nosso quotidiano...

Antes de mais, afinal o que é um automóvel conectado? Para muitos a associação imediata é de facto entre automóvel e 'smartphone', ou a uma ligação do automóvel à internet. Sim, é verdade que um veículo conectado, à imagem de um telemóvel desse tipo, pode aceder à internet e operar diversos dispositivos integrados através de uma simples tecla ou toque. Contudo, o conceito de automóvel conectado é muito mais do que isso, definindo-se basicamente como a ligação do veículo a uma rede ou plataforma partilhada, mais ou menos ampla, permitindo que também o automóvel aceda ao universo denominado “Internet das Coisas”, que não é mais do que uma rede de dispositivos com ligação permanente à internet e aptos a comunicar entre si. Um automóvel conectado é pois – idealmente falando – um veículo que dispõe de acesso internet, equipado com avançados sensores e sistemas tecnológicos de segurança e que está ligado também a uma rede ou plataforma de comunicação, dela fazendo parte, podendo assim comunicar com uma base ou central de informação e interagir com outros veículos dentro dessa rede.

Porquê o automóvel conectado? Por várias razões. Muito por questões comerciais, ou promocionais se quisermos, com os construtores e parceiros associados a disponibilizarem funcionalidades de conectividade e multimedia – sejam elas verdadeiramente úteis ou mais ligadas ao entrenimento – que servem para complementar a oferta de equipamento proposto nos veículos ou para ampliar os serviços neles oferecidos, de modo a facilitar a mobilidade e o quotidiano dos utilizadores. Mas também, e sobretudo, por razões maiores, que têm a ver com a segurança rodoviária, com a sustentabilidade deste tipo de transporte e com uma gestão mais eficiente do tráfego e das vias de comunicação. No fundo, o automóvel conectado explica-se antes de mais pela digitalização crescente de muitos dos aspetos do nosso quotidiano e de muitas áreas da economia, com todas as implicações práticas que daí resultam. Antes de mais, são, claro, as marcas quem promove os automóveis conectados, quer sozinhas quer associando-se a parceiros tecnológicos. Mas a aplicação da conectividade digital aos veículos automóveis é um desígnio não apenas desta indústria como também do legislador, pelas razões maiores já referidas. Como exemplo dessa vontade política, quase três dezenas de países europeus assinaram um memorando de entendimento com o objetivo de intensificar a cooperação transfronteiriça através da realização de testes de mobilidade conectada e automatizada. Esta iniciativa faz parte da estratégia já anunciada pela Comissão Europeia de criar e reforçar uma economia digital na qual a troca de dados desempenhe um papel preponderante. Foi a pensar nisso que há cerca de ano e meio vários dos principais intervenientes à escala europeia nas áreas da indústria automóvel e das telecomunicações juntaram forças para desenvolver uma oferta de conectividade e automação nos transportes rodoviários em condições reais de tráfego. Percebe-se melhor essa aposta se pensarmos, além da importância do fator segurança, que a indústria automóvel é um dos grandes contribuintes fiscais para os orçamentos europeus, bem como um setor decisivo a nível de conhecimento e inovação, representando mesmo o maior investidor privado nas áreas de pesquisa e desenvolvimento. Muita gente está envolvida no tema da conectividade automóvel, agora um tema verdadeiramente universal. No que se refere à conectividade que já existe hoje a bordo dos carros atuais, os envolvidos são sobretudo as marcas automóveis e parceiros tecnológicos associados (como Google, Apple, Samsung, entre muitos outros). Já no que diz respeito à preparação atualmente em curso das infraestruturas e dos automóveis conectados do futuro, além dos fabricantes e seus parceiros, estão também diretamente envolvidos a própria União Europeia, através das suas recomendações e apoios; os países e seus representantes mais empenhados no tema da mobilidade; bem como outros intervenientes, incluindo organismos oficiais, coletividades, gestoras de infraestruturas, universidades e centros de pesquisa e estudos científicos.

O conceito de automóvel conectado define-se basicamente como a ligação do veículo a uma rede ou plataforma partilhada de dispositivos com ligação permanente à internet e aptos a comunicar entre si.

Como? E quando? Ao contrário do que se possa pensar, a conectividade no automóvel implica muito mais do que uma “simples” ligação à internet. Na prática, o advento do automóvel conectado em toda a sua extensão está muito ligado à aplicação generalizada da quinta geração dos sistemas de comunicação sem fios, a chamada “5G”. Neste capítulo, o objetivo estratégico da União Europeia para 2025 é mesmo chegar à cobertura 5G permanente de todas as zonas urbanas e das principais estradas e vias de comunicação do Velho Continente. Só com a 5G se conseguirá a elevada velocidade de transmissão de dados, a baixa latência (que se pode definir como o fator que indica a qualidade em termos de tempo dessa transmissão de dados) e a capacidade suficiente para milhões de carros interagirem em tempo real. Além dos sistemas de comunicações 'wireless', os carros estarão equipados com tecnologias como, entre outras, câmaras de alta definição, sistema de navegação, radares anti-colisão, sensores de ultrassons, lidar (radar com varrimento laser), sistema de gestão automática do volante e dos travões, bem como sensores e calculadores que recolhem e processam várias informações, como a velocidade, o ângulo do volante, a potencial perda de aderência devido às condições climatéricas, o disparar dos airbags, etc... Um sistema tipo 'cloud' (uma “nuvem” conectada) permitirá assim que o veículo comunique com a rede, com o controlo do tráfego e com os outros veículos, emitindo em caso de problema, de forma automática, uma mensagem de alerta à rede e a todos os automóveis equipados com o mesmo sistema, atualizando 'over the air' e em permanência a programação dos sistemas informáticos a bordo do automóvel, as informações de trânsito e de navegação. Mas também não se pode falar apenas de um tipo de automóvel conectado... Porque existem de facto diversos tipos de automóveis conectados, ou melhor, diversas maneiras para um automóvel poder estar conectado e em comunicação com outros veículos e/ou com uma rede ou sistema: desde um veículo que comunica com a infraestrutura (via de circulação), enviando e recebendo dados (como por exemplo intensidade do tráfego ou condições atosféricas); à comunicação entre veículos (por exemplo, de modo a adaptar a velocidade entre dois carros contíguos, para prevenir acidentes); entre o veículo e a “nuvem” (sistema centralizado de informação), o que permite a cada veículo recorrer aos dados geridos pelo sistema); e até entre veículo e outros utentes da via (como os peões), com evidentes vantagens em termos de segurança. A conectividade no automóvel é já uma realidade. Estima-se que já hoje quase 90% dos condutores recorram a aplicações e ferramentas interativas para ajudar a planear os seus trajetos. E são ainda mais os que, de uma forma ou de outra, utilizam alguma das funcionalidades conectadas disponíveis a bordo do seu veículo. Mas aquilo que está hoje disponível tem muito pouco a ver com o automóvel conectado do futuro... Existem atualmente em fase de testes experimentais projetos europeus (e não só, claro) que visam a implementação, em condições de circulação real, da conectividade entre veículos (veículo-a-veículo, V2V) e entre veículos e infraestruturas (V2X). Esses testes de ensaio e demonstração são levados a cabo por vários fabricantes em associação entre si e em parceria com empresas tecnológicas e líderes mundiais em tecnologias de informação.

Que vantagens? As aplicações práticas do automóvel conectado e seus benefícios são muitos, muitos mesmo. Assim, se já hoje podemos encontrar desde simples integração no veículo das aplicações do telemóvel e a possibilidade de aceder a múltiplas funcionalidades práticas e de entretenimento como – por exemplo – comandos vocais e gestuais, realização de diagnóstico ao veículo, fecho e abertura remota de portas, sistemas de navegação, planificação de percursos, atualização online de mapas e de software, definição de parâmetros de conforto e de condução, gestão da manutenção do carro, seleção de pontos de interesse, listas de música, alertas de trânsito, informação sobre estacionamento no local de destino, preços dos combustíveis em tempo real, gestão de frotas, assistente pessoal (com um vasto conjunto de serviços personalizados, desde reservas de restaurantes a sugestões de itinerários turísticos ou obtenção de informação sobre eventos culturais ou desportivos) e outras “mil e uma” variantes de sistemas de infoentretenimento, no futuro (próximo) as aplicações práticas à disposição nos automóveis conectados vão alargar-se a domínios bem mais importantes e estratégicos para a mobilidade rodoviária e para a vida digital dos seus ocupantes... O grande benefício anunciado é a acentuada melhoria em três aspetos decisivos da mobilidade automóvel: segurança, fluidez da circulação e eficiência energética. Como define a Renault, “o objetivo prioritário é propor aos clientes automóveis que melhoram a segurança na estrada e tornam mais fluida a circulação: automóveis que comunicam entre eles e emitem alertas, em tempo real, em caso de perigo, acidentes ou congestionamentos. As gestoras de infraestruturas transmitem, também, aos automóveis, as informações sobre a circulação, trabalhos na via, velocidade autorizada e eventuais acidentes ou obstáculos”. Mas as possibilidades reais são ainda mais vastas, desde a condução autónoma (conceito ao qual o automóvel conectado está intimamente ligado e cujo desenvolvimento caminha lado a lado) ao reforço máximo da segurança na estrada e à gestão otimizada do transporte de pessoas e bens, possibilitando assim uma circulação automóvel mais segura e eficiente. Vejamos só alguns exemplos práticos que se podem tornar viáveis muito em breve: - diagnóstico do automóvel à distância - controlo da carga da bateria - atualização 'over the air' das informações de trânsito e de navegação - estacionamento controlado remotamente - possibilidade de “comboios rodoviários”, com vários camiões ligados via 'wireless' a circularem em “comboio”, à mesma velocidade e distância uns dos outros, poupando assim combustível e reduzindo as emissões, além de melhorar a segurança - assistência às ultrapassagens – um sistema já em estudo pela Samsung, que recorre a câmaras vídeo de alta definição instaladas no topo dos camiões em circulação numa determinada estrada; as imagens são reproduzidas em tempo real, tanto de dia como de noite, num ecrã gigante colocado na traseira do camião, oferecendo assim aos condutores dos carros que seguem atrás uma ideia exata do que se passa mais à frente de modo a tornar uma eventual ultrapassagem mais fácil e segura n gestão inteligente da condução – graças à qual a transmissão do veículo aplica automaticamente os dados recebidos pelo sistema de navegação por satélite, com evidentes benefícios em termos de conforto de condução, de consumo e de gestão do trânsito Mas outras, muitas outras, irão seguir-se...

O objetivo prioritário é propor aos clientes automóveis que melhoram a segurança na estrada

e tornam mais fluida a circulação.

100% de veículos conectados em 2025 As marcas apostam forte nos automóveis conectados. “Mais autonomia, mais eletrificação e mais conectividade” é o resumo que a Nissan faz para definir a sua visão para a mobilidade do futuro. Mas praticamente todos os fabricantes anunciam planos para desenvolver veículos “inteligentes” e cada vez mais “ligados”, conectando o automóvel a outros automóveis, ao escritório, à cidade, à estrada, antecipando uma nova era de conectividade ao ligar – como promove a Hyundai – “o automóvel à vida”. A conectividade é assumidamente um dos pilares da estratégia das marcas para o futuro. A par da condução autónoma na aplicação prática da Inteligência Artificial aos veículos em que nos deslocamos, a expansão dos 'conneted car' à medida que caminhamos para um futuro cada vez mais digital e sustentável é seguramente um dos capítulos da verdadeira revolução a que nos preparamos para assistir na mobilidade automóvel. Se ainda há pouco tempo havia apenas cerca de 1/3 de automóveis com funcionalidades 'connected', para 2020 espera-se que essa percentagem atinja já os 90% (para esse mesmo ano a Volkswagen tem previsto começar a conectar toda a sua frota automóvel); e em 2025 todos (sim, todos!) os automóveis novos já deverão ser conectados. De acordo com outra previsão recente, por volta do ano 2020 um total próximo das 25 biliões de “coisas” vão estar ligadas à internet. Desse total, uma percentagem muito significativa serão automóveis. Com um número crescente de veículos a disporem de ligação à designada Internet das Coisas graças ao advento dos automóveis conectados, bem se pode dizer que estamos a um passo de assistir à chegada de um novo conceito a que poderemos desde já chamar “a internet dos carros”...

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